Prefácio por Rui Pêgo

 Um mundo em permanente transformação, particularmente no início de uma nova Era, produz angústias (sociais) diversas, perplexidades (económicas) várias, equívocos (empresariais) fatais, com impactos aterradores no plano individual e na forma como nos habituámos a relacionar com o que nos rodeia.

É disto que nos fala o livro de Nuno Ribeiro. Protagonista e espectador atento das  transformações a que temos vindo a assistir, ele sistematiza, numa linguagem acessível, a tremenda complexidade dos processos de reorganização das empresas e dos negócios, sem nunca se deixar tentar pela ideia confortável do definitivo. Diz mesmo, no primeiro capítulo, que “pretende reflectir os desafios e realidades que hoje vivemos, mas amanhã tudo pode mudar…”.

No “olho do furacão”, a indústria de Media (tradicional) tem desenvolvido iniciativas, nem sempre da forma mais acertada, é verdade; mas tem tomado decisões com algum alcance estratégico, que têm permitido reconverter modelos de produção (muitas vezes ainda de forma tímida) e adaptar-se às exigências da realidade atual.

O ambiente (digital) em que nos movemos e, sobretudo, as alterações dos padrões de consumo de media exigem dos meios tradicionais (rádio, televisão, imprensa) um esforço suplementar para se adaptarem a um universo multiplataforma, com vista a capturar os diversos públicos que, progressivamente, têm vindo a deslocar a sua atenção e preferências para novos suportes, contactando os meios tradicionais e os novos media de modo integrado.

Esta nova realidade coloca a oferta de conteúdos (preferencialmente diversificada e diferenciadora) no centro do negócio, com valor estratégico para drenar múltiplos segmentos de consumidores, cada vez mais exigentes, tornando absolutamente indispensável a multiplicidade de suportes de distribuição. Assim, a reformulação dos circuitos de produção, simplificando o fluxo de conteúdos entre plataformas, a reestruturação da organização do trabalho e o recrutamento de novas competências, são fatores decisivos para produzir uma resposta adequada aos diferentes públicos que, embora alguns preservem ainda hábitos de consumo tradicionais, têm hoje novas necessidades.

A velha relação entre emissor e recetor, esfrangalhou-se. Embora muitos de nós ainda oiçam rádio, no rádio; vejam televisão, no televisor; e não resistam à intimidade com o papel de jornal, o “estatuto” do receptor está a evoluir para o centro (do universo mediático). É ele quem escolhe os emissores (de notícias, de entretenimento) que pretende, quando deseja, no horário que mais lhe interessa. Produz os seus próprios conteúdos (UGC, user generated content), e disponibiliza-os sem necessitar de qualquer autorização. Produzir conteúdos próprios ou participar nas programações não é novo (a rádio construiu, desde sempre, conteúdos com os seus ouvintes); o que é novo é a capacidade do receptor/consumidor publicá-los sem recorrer a “centros de emissão” institucionalizados.

Vivemos num mundo em que os jornais usam áudio e vídeo; os telemóveis tocam música, são verdadeiras centrais de informação; tablets são fontes inesgotáveis de informação e entretenimento; em que imagens da rádio abrem jornais televisivos. Isto é, conteúdos com origens diversas convivem no mesmo ambiente (digital), disputando a atenção dos consumidores, o que tem vindo a alterar de forma consistente os hábitos de consumo. Tendencialmente, cada vez menos pessoas se deixarão ficar sentadas na margem a ver o “Rio” passar. Cada vez mais pessoas passarão a preferir o “Lago”, para citar a imagem feliz de Christian Nissen, quando se refere à programação linear e a concentração de conteúdos para descarregar. A confirmar-se o que parece ser já muito mais do que uma tendência, cada vez mais pessoas consumirão de forma não tradicional. (33% dos consumidores Internet escutam rádio ao mesmo tempo. A rádio, de resto, é o meio tradicional mais forte em todos os estudos sobre multitasking – Fonte: Havas).

Definitivamente, neste nosso tempo, os meios tradicionais já não se ouvem, vêem ou lêem apenas (e cada vez menos) nos aparelhos habituais ou no papel. Expandiram-se para outros territórios. Ganharam uma nova vida.

Rádios, televisões e jornais tenderão a fazer convergir os seus conteúdos para outras plataformas e outros suportes, de modo a disponibilizá-los anytime e anywhere (com claro prejuízo para o prime-time, em desvalorização acelerada), levando os consumidores a “tropeçarem” no que produzem. Cada vez mais, será a capacidade para convergir (com outros meios), distribuir (em suportes múltiplos) e diversificar (conteúdos) que tornará os grandes produtores (os velhos emissores de notícias e entretenimento) relevantes.

E esta evolução será tanto mais rápida quanto mais depressa se encontrar a solução adequada de medição. Esta será a questão essencial do mercado, nos próximos tempos. O que o mercado vai querer saber é quanto é que vale cada conteúdo nas diversas plataformas e suportes. E nenhum dos instrumentos de medição disponíveis, resolve o essencial: medir conteúdos, na sua distribuição linear e nas diversas aplicações, que é exactamente o que o mercado exigirá saber.  Um dia, quando o negócio do LAGO (de conteúdos) se impuser ao actual RIO (da programação linear) ou quando o mercado determinar que os dois coexistirão, somando-se, encontraremos uma solução.

Nos últimos 20 anos mudou tudo, ou quase. Mudou a forma como se produz. Mudou a forma como se distribui. Mudou a forma como se consome.

A inovação tecnológica não parará de nos surpreender e contribuirá fortemente para acelerar o processo de convergência de meios e a integração de conteúdos. Mas, no essencial, a questão tecnológica está resolvida. Resta saber se as empresas, neste conturbado “período de transição”, terão capacidade (e inteligência) para reconverter profissionalmente as pessoas e alinhá-las com as novas exigências. Também neste nosso tempo, são as pessoas que vão fazer a diferença.

O nosso principal problema pode ser, como diz Nuno Ribeiro nas suas notas finais, “ a inércia e a dificuldade em adaptar e reorganizar as empresas”, dotando-as de capacidades para responderem “às novas realidades e desafios empresariais provocadas por mudanças abruptas”.

A inércia, a incapacidade para mudar de vida, pode ser mesmo a nossa perdição como indivíduos, uma fatalidade para as empresas e para os países. Neste caso, não resisto a contar aqui uma história que ouvi uma vez a Mia Couto.

Um dia, ele encontrou dois miúdos sentados num muro.

Perguntou a um deles: o que é que estás aí a fazer? Ele respondeu, nada. E tu, o que estás a fazer?, perguntou ao outro. Estou a ajudá-lo.

Nós podemos fazer a mesma coisa, podemos ver os sinais – a crescente utilização da Net; os telemóveis última geração; os automóveis equipados com rádios IP, em que só se ouve o que se quer; o crescimento do cabo; a explosão dos tablets; o On Demand, como uma coutada de excêntricos – e não fazer nada.

Podemos continuar sentados no muro, como os miúdos da história de Mia Couto, mas estaremos sentados em cima de duas certezas: este nosso tempo varrer-nos-á com a facilidade de um tsunami e arrastará, consigo, na enxurrada, o muro que nos serve de abrigo. Os muros da História também caem, como sabemos.

Rui Pêgo